Sábado, 09.01.16

 

 

Percorri o jardim do meu olhar, até onde alcançava a minha vista

e fui olhando tudo o que lá via. Recordei todas as flores,

chorando ao pé de uma lagoa sombreada e mista

de dores e amores que ninguém padeceria.

 

Percorri o jardim reconstruído sobre as ruínas de um amor ausente

e percebi as pragas e maleitas

que haviam atacado e destruído tantas flores, em todos os canteiros.

Até as pedras choravam, de doentes.

 

Percorri o jardim e lá me deixei estar, olhando e apreciando

os meus amores, meus canteiros já novamente cuidados.

Plantei novo jardim no meu olhar, semeei novas espécies, novas flores

e deixei os meus males lá bem fundo, enterrados…

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 10:42 | link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 01.10.15

Sentei-me na esplanada do café.
Mandei vir um café. Paguei-o, entregando
uma moeda de um euro que retirei do porta-moedas
e da qual recebi troco. E afinal era uma moeda falsa!
O empregado veio perguntar-me se sabia onde a tinha recebido
se sabia quem ma tinha dado, porque era falsa.
Já ouvi de falar de notas falsas, agora moedas!

Era uma moeda velha e amachucada
cá para mim foi por isso que ele não a quis.
Disse que até no peso se notava, que a falsa era mais leve,
que o material não era o mesmo e (para que eu não
me pusesse com ideias) que nem a máquina dos cigarros a aceitaria.
Não acreditei, claro, ele não queria era ficar com uma moeda velha.
É que, se aquela moeda era falsa, já tinha enganado muita gente
pois tinha nitidamente anos de circulação.

Mas dei-lhe outra. E dali a uns minutos ele veio
trazer-me o troco. Troco?! Ele já me mo havia dado…
Desfiz o engano (mas hesitei…)
E ele deve ter ficado com cara de parvo
mas pelo menos ficou a saber que eu não pretendia enganá-lo.



publicado por Felipa Monteverde às 14:28 | link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 13.01.14

A crise dos outros não me incomoda

jamais alguém se preocupou com a minha.

Vivo em crise desde que nasci, poupança

foi a primeira palavra que aprendi.

 

Tenho desejos, como toda a gente tem, de

ter coisas boas e bonitas – mas a crise que

me acompanha desde o nascimento jamais

me permitirá tê-las para além do sonho…

Passeios, viagens que farei, vestidos e joias

que um dia comprarei…

 

Entretanto esse sonho vai mirrando

cada dia mais… pouco a pouco vai deixando

de ter espaço para eu lá habitar… E de novo

acordo para a crise, real mistura de emoções que

todos sentem, entre altos desejos e vontades

e a simples satisfação de meras necessidades…

 

A crise dos outros não me incomoda, se

a vivem num vestido mais bonito do que o meu.

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 13:20 | link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Quarta-feira, 08.01.14

Engoliu à pressa o café, a chávena escaldando os dedos. Queimou a língua mas não se importou, lá fora a primavera despertava e ele queria assistir ao nascimento da primeira flor. Ver o sol, depois de semanas ininterruptas de chuva, era como renascer. Sentia as forças aumentarem, a alegria a instalar-se.

Bebeu à pressa o seu café e ficou aguardando, a menina Eugénia viria logo para lhe empurrar a cadeira até ao jardim. Deixá-lo-ia lá, uma manta sobre os joelhos, até que a chamasse. Mas hoje não chamaria, as saudades que sentia do sol não se matariam com uma hora ou duas de exposição. Precisava de o sentir na pele, de o deixar abrasá-lo com o seu calor. Viesse a menina Eugénia buscá-lo apenas para o almoço, até lá queria absorver tudo o que pudesse do astro amigo.

Ficou horas no jardim. Com o olhar de quem se habituou desde muito cedo a reparar nos mais ínfimos pormenores das coisas, ele via todas as plantinhas que despontavam no jardim, todas as flores cujo botão já assomava. E desenhava.

Nos seus desenhos havia sempre flores, havia sempre uma nova planta ou flor para mostrar ao mundo. Ao mundo ou à menina Eugénia, que era quem dependurava todos esses desenhos nas paredes do seu quarto. E até no corredor, quando todas as paredes do quarto que era o seu mundo não chegavam. 

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 23:22 | link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 07.11.13

Se importava ou não, ela saberia responder. Na vida nada lhe tinha sido fácil, desde pequenina. Uma meningite que quase a levava, a orfandade que a acompanhava desde bebé, a aprendizagem difícil na escola, as amizades que não conseguia arranjar, os namoros que nunca teve.

Por isso sabia bem, se as coisas importavam ou não, não lhe viessem agora com conversas ocas e conselhos inúteis. Gostava dele, pronto. Não lhe importava se ele correspondia, se ele se importava com ela, se era certo ou não esse romance. Só queria estar com ele, sem pensar em nada.

Nas noites agitadas em que sonhava com o final, com o dia em que ele deixaria de aparecer, percebia que nada na sua vida valeria a pena, que tudo se desmoronaria como um castelo de cartas mal construído, como um castelo de sonhos em que ela jamais viveria.

Por isso a deixassem em paz, vivendo a sua vida, contemplando esse amor como se fora a relíquia que a tornaria sagrada, que a tornaria mulher. Que fazia com que valessem a pena todos esses anos de poupança, de solidão, de isolamento. Agora estava bem financeiramente, podia perder tempo, tirar fins-de-semana, férias, para estar com ele. Para viver com ele as horas em que a paixão tomava conta dos dois e o tempo parava.

O amor que lhe inundava o coração tomava conta do seu corpo. Vagas intensas de paixão em sonhos que se tornavam realidade, a lascívia que tomava conta das noites em que ele ficava até de manhã. Tudo isso fazia com que valesse a pena.

O resto não importava, não queria saber. Queria apenas que ele a amasse, que apagasse aquele fogo que tomava conta do seu corpo, sempre mais e mais, cada vez mais ansiando que chegasse a noite e ele abrisse a porta do seu quarto, sorrindo.

Se era feliz? Era imensamente feliz. O resto não importava nada. 

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 16:51 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Quinta-feira, 12.09.13

Li no jornal:

«Menina de oito anos morre na noite de núpcias».

 

Mas que mundo cão é este, que permite

que uma menina de oito anos tenha noite de núpcias?!



publicado por Felipa Monteverde às 22:04 | link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 15.04.13

Maria Antónia acordava todos os dias às sete horas. Não que se levantasse a essa hora, mas gostava de ficar sempre um bocadinho na cama, acordada, antes de se levantar para mais um dia de trabalho.

Por volta das oito horas já tinha tomado o pequeno-almoço, estava pronta para sair e esperava por ele.

Ele era o autocarro, o companheiro das oito, como dizia. Todos os dias da semana, à mesma hora, mais minuto menos minuto, ela apanhava aquele autocarro e lá ia, sem vontade nenhuma, trabalhar.

Ah, como ansiava um dia encontrar um homem rico, ou pelo menos um daqueles que têm brio masculino, ou lá o nome que isso tem, e não querem que a mulher trabalhe... assim já ela não teria de se preocupar em levantar-se da cama, ficaria todo o dia entre os lençóis, bem deitadinha...

O pior seria o dinheiro. Habituada à independência financeira desde muito nova, algum dia seria ela capaz de depender de um homem? Depender para tudo, pedir dinheiro para tudo, até para comprar um simples lenço?

Não sabia, não sabia se seria capaz... queria era dormir, isso sim, até ao meio-dia, todos os dias... o resto ver-se-ia depois.

Mas encontrar um homem desses não é tarefa fácil. Ela bem tenta, mas não é fácil. É que para que ela se submeta a um homem desses, de quem ficaria totalmente dependente, ele tem de ter todas as qualidades, todinhas mesmo, não perdoa nenhuma...

E por isso ainda espera por ele, pelo homem e pelo autocarro, todos os dias. O autocarro nunca falta, o homem tarda em aparecer... mas um dia chegará, ela sabe, em que o encontrará, num sítio qualquer. Se há tantas mulheres com essa sorte, por que não há de ela tê-la também?

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 22:40 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Quinta-feira, 04.04.13

Fez um amigo. Um desses amigos que agora é comum encontrar, num chat da Internet. Fez um amigo e tem medo, no que vai isso dar?

Não faz tenções de avançar com nada, de o conhecer pessoalmente, não precisa. Tudo que quer dele são as palavras amigas que recebe, o carinho que embora virtual existe mesmo. E vive os dias para essas palavras, esconde a ansiedade indo ao café, à noite, procurando não ter pressa, para provar a si mesma que ele é apenas mais um dos muitos amigos, homens e mulheres, com quem "fala" muitas noites por semana. Mas não consegue estar muito tempo longe e vai embora, para casa, sabe que se ele já não estiver "on" ela passará a noite a chorar.

Estar "online" é a sua preocupação mal chega do trabalho, permitir que ele a encontre quando a procura no chat, estar sempre ali, para ele, só para ele. Todos os outros amigos a aborrecem, sempre com os mesmo assuntos, as mesmas conversas parvas. Aquele não, é diferente de todos, sabe falar e sabe o que diz, mas principalmente sabe "escutar", dar atenção. E atenção é do que ela mais precisa, que a ouçam, que a escutem pelo que ela é e vale e não pela utilidade que possa ter para alguém.

Por isso gosta dele. Não lhe imagina o rosto, as feições, até pode ser preto, chinês, aleijado... o que ela gosta nele é superior ao aspeto físico, é a alma, o espírito, a amizade. Profunda, foi crescendo e agora é do tamanho da sua solidão. Ou maior ainda, envolvendo-a e protegendo-a.

Quando liga o computador é nele que pensa, é ele que espera. É por ele que anseia enquanto "conversa" com outros. As amigas falando de vernizes para unhas, roupas e limpezas na casa, os amigos de assuntos ainda mais banais. Só aquele fala diferente, as suas palavras parecem pautas musicais, que ela lê avidamente e às quais responde com muitos smiles. 

Um dia disse a uma amiga para ter cuidado com quem conhece na Internet, pode ser alguém perigoso... e hoje ela está completamente passada das ideias por alguém que conheceu "online"...

Não contou nada às amigas, nada lhes conta deste amigo, deste ser especial que ama. Sim, porque o ama. Ama sem conhecer, sem nunca o ter visto. Mas não quer vê-lo, sabe que quando o vir tudo acabará, a fantasia em que envolveu essa amizade não resistirá ao facto de que ele também a verá tal como é, insignificante e decadente... e não quer que ele a veja, que saiba como é velha, acabada, solitariamente entregue a si mesma, sem ter sequer um gato a fazer-lhe companhia. As pequenas mentiras que lhe contou tornar-se-iam monstros enormes a esmagá-la... por isso não quer vê-lo, quer apenas amá-lo no silêncio, por trás da tela de um computador, falando numa linguagem enfeitada com muitos smiles...

 

Felipa Monteverde

Para J. C.



publicado por Felipa Monteverde às 21:51 | link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Quarta-feira, 03.04.13

Ouvia-o mas parecia que as palavras dele soavam muito longe, tão longe como a vida que ambos haviam partilhado. Já não parecia o mesmo. Naquele rosto marcado pela idade, onde as rugas iam desenhando traços de solidão, parecia não haver nada do homem que ela conhecera, nada restava do sonho que a havia atraído ao vê-lo pela primeira vez. Longe, tão longe, ficaram as lembranças, perdidas na noite escura do desespero que já sentira e das saudades que ainda guardava no peito e na alma.

Ouvia-o e parecia não ouvir, não entendia nada, as palavras pareciam disfarçadas ou distorcidas, não conseguia perceber sequer qual o assunto de que ele falava. Ou não queria perceber. Nem entender. Preferia ignorar, ignorar sempre, só queria dormir. Dormir toda a noite e todo o dia, todos os dias e todas as noites.

Ele insistia, chamava-a pelo nome, chamava-a com carinho, até. Falava, falava muito. Insistia com ela e ela sem entender nada, de que falava ele? "Não durmas" dizia, quase gritava, mas ela tinha tanto sono...

Olhava para ele sem entender, os olhos queriam fechar-se, queria gritar por socorro, que a deixasse dormir em paz. Mas ele não deixava, e falava, e gritava, e dizia coisas que ela não entendia.

Por que insistia ele tanto em chateá-la? Em não a deixar descansar em paz? Ela só queria dormir, até tinha tomado mais comprimidos do que o habitual, a ver se descansava, há dias que a cabeça não parava de lhe doer, de a incomodar com aquela dor lancinante que parecia roubar-lhe a alma. E ela sem aguentar mais, os analgésicos já sem o efeito pretendido, sem conseguir sequer dormir, há tantos dias a sofrer... E agora era ele que não a deixava dormir, e os comprimidos a fazerem-na adormecer... não aguentava mais, o sono a invadi-la e ela a querer deixar-se ir...

"Deixa-me dormir" disse, e ele "o que te fiz, por que fizeste isto" e ela "isto o quê, deixa-me dormir, não sejas chato"...

E agora ele a pô-la na banheira, que significava isso, estava doido?

"Não durmas", gritava ele, "não me deixes", o parvo, mas onde pensava ele que ela ia, ela só queria dormir, mais nada... e ele a abrir a torneira, o idiota, a molhar-lhe o pijama, era doido...

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 17:32 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Terça-feira, 12.03.13

Anda pelo facebook uma imagem que diz:

"Amigo não é aquele que te levanta quando cais, mas sim aquele que vai atrás do f. d. p. que te empurrou."


Isto é suposto ter piada... mas eu acho esta definição de amizade a mais verdadeira que já vi. E como nunca ninguém foi atrás de nenhum dos f. d. p. que já me empurraram, fico assim a saber que não tenho amigos.

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 22:10 | link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito


mais sobre mim
links
Janeiro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


posts recentes

Novo jardim

A moeda "falsa"

A crise dos outros

Manhã de sol

Paixão

No jornal

O homem

Um amigo

Sono

"Amigo é..."

arquivos

Janeiro 2016

Outubro 2015

Janeiro 2014

Novembro 2013

Setembro 2013

Abril 2013

Março 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

blogs SAPO
subscrever feeds