Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

A minha tia Dores é daquelas pessoas chatas, mas tão chatas que só em nos lembrarmos delas já ficamos chateados.

Quer saber tudo acerca de tudo, e o pior é que não guarda segredo de nada e conta tudo, mas tudo! o que sabe e mais ainda – tem o condão de aumentar sempre mais um pontozinho a tudo o que conta.

É, portanto, daquelas pessoas que temos forçosamente de evitar, ou a nossa vida será falada e sabida por toda a gente, não só sabida mas exageradamente comentada.

Irmã da minha mãe, a tia Dores assumiu um pouco o papel desta quando ela faleceu (embora isso tenha sido há 6 anos e eu já ser bem crescidinha) e volta e meia lá me telefona, a querer saber tudo de mim, do marido, dos filhos, dos amigos dos filhos, do gato, do cão, (bem, eu não tenho gato nem cão, mas se tivesse com certeza a tia Dores quereria saber tudo sobre eles).

De tudo o que há cá em casa quer saber: com que é que limpo a sanita, ela comprou um produto no supermercado que não resultou muito bem, cheira mal que se farta e não limpa nada, lá em França é que havia produtos bons, era um cheirinho que só visto (ou sentido, neste caso).

É uma chata, a tia Dores, oh como é chata! E como me chateia com os seus telefonemas, sempre a perguntar coisas a que eu não quero responder, sempre a falar, a falar…

As filhas (que não estão para a aturar) dizem sempre que sim a tudo e vão à vidinha delas, muito descansadas e tranquilas, e a tia Dores sai à rua e desabafa com a primeira vizinha que lhe aparece à frente, falando mal das filhas que são umas mal-agradecidas e não fazem caso dela e a deixam só, e ela sempre preocupada com elas que até se sente mal, no outro dia esteve quase a telefonar para o 112 mas depois lembrou-se de que agora tem de se pagar o transporte de ambulância para o hospital e desistiu, fez um chazinho com umas ervas que uma prima lhe tinha dado, muito boas para acalmar, e ficou melhorzinha graças a Deus.

O marido, o tio Xavier, nada diz. Contenta-se em ir ao café, gozar a reforma a jogar às cartas com outros na mesma situação – menos o Aníbal, que ainda está no ativo e joga de vez em quando mas é apenas quando o turno no trabalho lhe deixa as tardes livres, o que acontece mais ou menos de duas em duas semanas, dependendo se não o troca com alguém que precise de fazer umas obras em casa ou outras coisas quaisquer, e o Aníbal como é muito prestável aceita as trocas com toda a gente.

A mulher diz que os colegas abusam dele por ser tão molenga mas ele nem ouve, diz que não está para se chatear por tão pouco, que a ele não lhe custa nada trocar turnos e assim vai fazendo o jeito a quem se quer ajeitar, e que a mulher não tem nada com isso pois quem trabalha é ele e é ele, portanto, quem sabe se pode ou não pode fazer esses favores aos colegas. Cá para mim, o Aníbal quer é estar afastado da mulher o mais possível…

Pois o tio Xavier nada diz, dos achaques da minha tia ou da indiferença das filhas, quer é gozar a companhia dos netos quando o vêm visitar, e a mulher e as filhas que se entendam na cozinha, onde estão sempre a tomar café e a falar mal dos homens (é o que ele acha que as mulheres fazem quando se juntam).

Lá nas estranjas por onde andou e trabalhou já teve preocupações que chegassem, agora cada um que se entenda que “eles são brancos não são pretos” (este provérbio se calhar não soa muito bem nos tempos que correm, mas o meu tio gosta muito de dizer as coisas que aprendeu antigamente, como se pretendesse preservar a memória desses tempos e diz o que lhe apetece sem ligar a preconceitos ou racismos, até porque se há pessoa que não é racista no mundo é ele, que trabalhou tantos anos com pretos lá na França e sabe muito bem que eles até “são pessoas iguais a nós e melhores do que muitos brancos que conheço”).

Pois, enfim, como ia dizendo, a minha tia é daquelas pessoas chatas, muitíssimo chatas, que queremos sempre ver pelas costas e a quem fingimos que não vemos quando as encontramos na rua, tentando passar invisivelmente para o outro lado do passeio.

É assim, a minha tia Dores.

Mas hoje, hoje é um dia diferente.

E porque é um dia diferente, fiquei contente com o telefonema da tia Dores, ao contrário do que me acontece em todas as outras vezes em que ela me telefona e eu vou suspirando em silêncio, ansiando que ela se canse de falar e desligue, finalmente, contente da vida por ter desenferrujado a língua (que duvido que tenha um pinguinho sequer de ferrugem, dado o uso que ela lhe dá todos os dias).

Pois, mas hoje agradeci, e quase beijei a tia Dores (se isso fosse possível por telefone). Como fiquei contente com o telefonema dela!

É que hoje é mesmo um dia especial, tão especial que eu até faço anos… e ninguém se lembrou disso cá em casa.

Nem marido, nem filhos, ninguém… andam ocupados cada um com os seus assuntos, as namoradas, o futebol, os exames, e os mais etc. que cada um tem, e nenhum deles se lembrou do meu aniversário…

Só se lembrou a tia Dores.

E eu nem sei se ralho, se amuo, se me zango… ou se saio e vou comprar uma prenda para mim, que se calhar até é o melhor a fazer.

E cada um que se amanhe com o jantar, eu vou visitar a tia Dores e tomar um cafezinho com ela, que já me convidou tantas vezes e eu tenho declinado sempre esses convites… mas hoje é mesmo um dia especial!

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 18:43 | link do post | comentar | favorito

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