Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Ouvia-o mas parecia que as palavras dele soavam muito longe, tão longe como a vida que ambos haviam partilhado. Já não parecia o mesmo. Naquele rosto marcado pela idade, onde as rugas iam desenhando traços de solidão, parecia não haver nada do homem que ela conhecera, nada restava do sonho que a havia atraído ao vê-lo pela primeira vez. Longe, tão longe, ficaram as lembranças, perdidas na noite escura do desespero que já sentira e das saudades que ainda guardava no peito e na alma.

Ouvia-o e parecia não ouvir, não entendia nada, as palavras pareciam disfarçadas ou distorcidas, não conseguia perceber sequer qual o assunto de que ele falava. Ou não queria perceber. Nem entender. Preferia ignorar, ignorar sempre, só queria dormir. Dormir toda a noite e todo o dia, todos os dias e todas as noites.

Ele insistia, chamava-a pelo nome, chamava-a com carinho, até. Falava, falava muito. Insistia com ela e ela sem entender nada, de que falava ele? "Não durmas" dizia, quase gritava, mas ela tinha tanto sono...

Olhava para ele sem entender, os olhos queriam fechar-se, queria gritar por socorro, que a deixasse dormir em paz. Mas ele não deixava, e falava, e gritava, e dizia coisas que ela não entendia.

Por que insistia ele tanto em chateá-la? Em não a deixar descansar em paz? Ela só queria dormir, até tinha tomado mais comprimidos do que o habitual, a ver se descansava, há dias que a cabeça não parava de lhe doer, de a incomodar com aquela dor lancinante que parecia roubar-lhe a alma. E ela sem aguentar mais, os analgésicos já sem o efeito pretendido, sem conseguir sequer dormir, há tantos dias a sofrer... E agora era ele que não a deixava dormir, e os comprimidos a fazerem-na adormecer... não aguentava mais, o sono a invadi-la e ela a querer deixar-se ir...

"Deixa-me dormir" disse, e ele "o que te fiz, por que fizeste isto" e ela "isto o quê, deixa-me dormir, não sejas chato"...

E agora ele a pô-la na banheira, que significava isso, estava doido?

"Não durmas", gritava ele, "não me deixes", o parvo, mas onde pensava ele que ela ia, ela só queria dormir, mais nada... e ele a abrir a torneira, o idiota, a molhar-lhe o pijama, era doido...

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 17:32 | link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Ailime a 3 de Abril de 2013 às 20:44
Um conto como um grito de alma! Muito bem escrito! E o sono esse inimigo da vigília que tanto bem faz ao espírito! Há momentos na vida em que apetece dormir, dormir...e acordar como se tudo não passasse de um sonho. Beijinhos. Ailime


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