Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

Ela ia lavando a loiça, pondo-adepois a escorrer. O almoço fora bom, saboroso; já todos tinham almoçado e regressado ao trabalho.

O trabalho era uma preparação para o Natal que se aproximava: o marido e os filhos preparavam a lenha, serrando e cortando os troncos para depois pôr em achas na lareira. Serravam, cortavam, armazenavam, abrigando a lenha da chuva que se adivinhava para breve, quiçá antes de a tarde acabar.

Os filhos já eram crescidos. Ela olhava-os da janela e recordava outros feriados, e este em particular. Porque este feriado era dela e dos filhos.

Quando eram crianças ela ia com eles ao monte procurar pinhas, bugalhos, ramos secos e outras coisas, para enfeitar a casa no tempo que antecede o Natal.

O pinheiro às vezes também vinha neste dia mas só se encontrassem um já cortado, não tinham coragem de destruir o pinheiral só para terem árvore de Natal. Se não encontrassem um pinheiro já cortado esperavam até ao próximo feriado, no dia 8, e só então, se não o tivessem encontrado, ela e os filhos cortavam um, num sítio que estivesse a precisar de desbaste. Por isso as suas árvores de Natal nunca eram bonitas como as da outra gente…

Acabou de lavar a loiça e foi até à porta; ali ficou, a olhar para o quintal.

Estava triste. O feriado fora-lhe roubado, não só pelo Governo, que determinara ser este o último ano em que seria comemorado, mas também pela vida, que lhe retirara a companhia dos filhos.

Apesar de estarem todos em casa ou no quintal, trabalhando, ela estava só. Cuidara das roupas e do almoço, agora tratava da loiça, mas sozinha. Os filhos trabalhavam com o marido, cuidando da armazenagem da lenha.

Antigamente o marido trabalhava neste feriado, guardavam apenas os religiosos, mas a vida dera-lhes uma folgazinha, já se podem aliviar na poupança e aproveitar outros feriados, embora seja igualmente para trabalhar, mas nas suas coisas. Tratar das galinhas, da lenha, da horta, etc.

Hoje ela está melancólica. Sente que está a perder a atenção dos filhos, que não a querem ao pé deles a tratar da lenha, dizem que só iria atrapalhar, que eles tratam de tudo...

Afasta-se para a cozinha; guarda a loiça no armário, faz um café e senta-se à mesa, a tomá-lo devagar.

Ouve as conversas alegres do marido e dos filhos, ouve as risadas, sente-se só.

“Estou a ficar velha, já não me ligam nenhuma…”

Mas não se resigna, até agradece que não a deixem tratar da lenha, ficaria com as mãos ainda mais estragadas… E tem uma ideia: vai fazer arroz-doce, será uma surpresa para eles e um ótimo lanche.

E quando os filhos entram em casa para lanchar, depois de arrumada a lenha, sentem o aroma da canela e olham os pratos de arroz-doce ainda quentinho, surpreendidos mas contentes.

E ela sente que jamais os perderá.

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 21:57 | link do post | comentar | favorito

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