Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

Ninguém a preparou para o que a esperava, tantos anos de solidão e uma vida em permanente espera por algo que jamais chegaria. Tantos anos agora passados, ela nem sabe para quê ou quem viveu essa vida angustiosa e estafante que foi a sua.
Diziam que ele chegaria, que a amava, que a queria e em breve a faria sua. Era mentira. Ele, lá longe, a mulher e os filhos, o lar que fundou. Ela, a eterna namorada, neste país triste em que cantar é uma afronta, permanece virgem e intocável à sua espera.

Mas ele jamais virá. E se vier, ela saberá que será por pouco tempo, apenas o necessário para lhe dizer que não devia ter esperado por ele quando ele emigrou, que devia ter ido com ele quando ele lhe pediu, contrariando a vontade dos pais em deixá-la partir.
Não os contrariou, não partiu com ele, morreu por esses dias, quando o avião que o levava para longe dela levantou voo, o aeroporto que ela nunca viu cheio de amigos que se despediam. Ele partiu, esqueceu-a, arranjou novo amor. Ela sabe, alguém lhe contou, que não havia passado um ano e ele já estava casado. Esqueceu-a assim depressa, tanto amor que lhe jurava.
Os pais não a deixaram sair, arranjar namorado. Ele vai chegar, diziam, és a namorada e tens de o respeitar, não pode haver vergonhas na família. Que vergonhas? A vergonha de ser passiva em relação aos pais, essa obediência que a oprimiu toda a vida, a falta de carácter que sempre achou que tinha. Perdeu tudo por obediência, agora estava só, sem marido, filhos, amigas, sem os pais.
Foi triste a vida toda. Quando ria era de dor, quando sorria era para disfarçar a tristeza que lhe preenchia o coração. Felicidade, o que era isso? As moças da sua idade foram casando, criando filhos, e ela sem ninguém, os pais não permitiam confianças com os moços que lhe sorriam ao sair da igreja, aos domingos.

Até mesmo quando o senhor Serafim, ao ficar viúvo e com cinco filhos para acabar de criar, a pediu em casamento, já ela estava bem passada dos trintas, os pais não permitiram e nem deixaram mais que ela fosse à sua mercearia.
Estragaram-lhe a vida, com a desculpa de não quererem vergonhas na família. Vergonhas que ela não se importava de ter cometido, fossem quais fossem, só para ter agora algumas recordações a que se agarrar nas noites solitárias de inverno.

Vive só, a idade não perdoa e todos já partiram. Só ele ainda não regressou. Naquela casa triste, onde toda a gente que lá viveu já há muito morreu, ela aquece uma malguinha de sopa antes de ir dormir, para aconchegar o estômago. O corpo deita-se entre os lençóis frios, não há um abraço que a conforte do frio da madrugada.

Mas ele vai chegar, garantiram-lhe os pais. Finge acreditar e adormece.

 

Felipa Monteverde



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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2012

Não quero pensar na crise.

Não quero pensar em falta de emprego,

de poder de compra, de oportunidades para os jovens.

Não quero pensar em nada disto.

 

Greves? Não, obrigada.

Nem na troika quero pensar.

 

Quero ser como a avestruz

enterrar a cabeça na areia até que a crise passe.

O futuro depois se verá

quando chegar a altura resolverei e decidirei o que fazer.

 

Para já, quero dormir

quando tudo tiver passado acordem-me.

 

Mas não me chamem cobarde. 

Cobardes são os que fogem e eu nunca fugi.

Não fugi à falta de trabalho nem ao trabalho difícil

não fugi a estragar a pele das mãos

a ganhar tantas rugas que transporto

a perder a vivacidade na pele do rosto.

 

Não fugi.

Enfrentei o que tinha de vir e veio.

Suportei a miséria, o desdém

os olhares de piedade e de troça

com que me olhavam por ser pobre e ter "muitos" filhos.

 

"Isso agora já não se usa" diziam...

 

Suportei o que tinha de vir e veio.

Mas assim como veio se foi, e fiquei livre.

Livre para viver sem me preocupar 

com a crise ou com a troika 

pois quem nunca teve as riquezas que alguns têm 

não tem medo de ser pobre, que é o que sempre fui.

 

Por isso, não quero ouvir falar em desgraças

que desgraçada fui a vida toda...

 

Felipa Monteverde



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Sábado, 8 de Setembro de 2012

Prendia-o o mar, era o mar que o prendia. Prendia-o àquela aldeia tão insignificante, tão pequena. “Se não fosse o mar…”

Talvez tivesse emigrado, procurado outra vida. Mas amava o mar…

- Nos outros países também há mar – diziam-lhe.

Sim, havia mar, António sabia que havia mais mar, não era só este. Até tinha aprendido na escola que havia no mundo mais mar do que terra. E tinha aprendido os nomes dos cinco Oceanos: Atlântico, Indico, Pacífico, Árctico e Antárctico. Isso ele sabia.

Mas o mar não é igual em todo o lado, isso ainda sabia melhor. Um dia visitara a cidade de Corunha, em Espanha. E viu o mar de lá, e agradou-lhe.

Era um mar diferente. Pareceu-lhe mais verde do que azul, e a espuma das ondas era branca como o leite. Agradou-lhe aquele espectáculo de verde e branco. Ficou meia hora a olhar o mar, e só não ficou mais tempo porque o autocarro da excursão não esperava mais. Entrou para o autocarro com os olhos cheios de mar. Ele amava o mar.

Punha-se muitas vezes na varanda de sua casa a olhar o mar. Outras vezes ia vê-lo mais de perto, na praia. António era pescador e apaixonado pelo mar. António via o mar, ouvia o mar, cheirava o mar… António gostava do cheiro do mar; cheiro a sal, a maresia…

E então António lembrou-se de uma coisa, uma coisa muito importante: o mar da Corunha não tinha o mesmo cheiro. Não, não tinha o mesmo cheiro. Assim como não tinha a mesma cor, também não tinha o mesmo cheiro… O mar não era igual em todo o lado.

Por isso, António não saiu da sua terra, não emigrou como os irmãos.

Os irmãos de António moram há anos no Canadá. E vivem bem, têm coisas que ele nunca viu, a não ser nas revistas que folheia no quiosque se a dona estiver distraída, pois quem mexer é obrigado a comprar. Mas se António comprar a revista, não pode comprar o jornal; e ele prefere comprar o jornal, sempre tem coisas mais sérias.

As fotos das revistas atraem-no, mostram coisas que só assim pode ver. Mostram coisas que ele gostava de ter, que gostava de oferecer aos filhos… mas o mar, o seu mar, tem andado zangado; o peixe é sempre pouco.

E depois, o comer é certo, o vestir é certo… as contas têm de se pagar. E António sempre pagou as suas contas, toda a gente sabe que ele é um homem sério. Pobre, sim, mas sério, honesto.

Há  dias António recebeu uma carta do irmão mais velho, o primeiro a emigrar para o Canadá (depois foram os outros dois, chamados por ele).

Agora Joaquim escrevia-lhe: que fosse para o Canadá, que lá se vivia bem. E depois, estariam os irmãos perto uns dos outros, os filhos cresceriam juntos e amigos; afinal, eram primos e nem se conheciam. Aliás, nem os tios os conheciam.

Mas António amava o mar…

Conversou com a mulher, conversou muito com a mulher. E a mulher já se via longe da enxada, da sardinha, do tanque de lavar roupa (lá há  máquinas para tudo…). Via-se com um vestido igual ao de uma das cunhadas, na fotografia que mandaram no Natal… A mulher de António sonhava, sonhava…

Conversaram, conversaram muito. E António decidiu-se, iriam para o Canadá. Pela mulher, pelos filhos, iria para o Canadá. A mulher merecia que ele lhe desse uma vida melhor. A sua mulher merecia uma vida melhor. Os seus filhos também. Os seus queridos filhos.

Pela mulher, pelos filhos, António deixaria o mar. Dali a duas semanas estariam no Canadá. Iria rever os irmãos, conhecer os sobrinhos (nem sabia ao certo quantos eram). “Daqui a duas semanas estamos no Canadá,”  pensava. E o mar?

António não pensava no mar. Se pensasse, não teria coragem para partir.

Venderam a casa. Iriam para o Canadá, viver uma vida melhor. A mulher merecia, os filhos mereciam… Nessa noite, quando saiu para a pesca, António levava a certeza do Canadá. Só mais uns dias de mar, e depois o Canadá. Pela mulher, pelos filhos, para lhes dar uma vida melhor…

Pela manhã o barco de António não apareceu na praia. António não apareceu na praia. E houve gritos, muitos gritos. Gritou a mulher, gritaram os filhos; todas as mulheres da praia gritaram, toda a gente chorou.

Os rudes homens do mar também choraram, mesmo sabendo que era o destino. O destino de António e talvez o deles próprios. Nesse dia houve muito choro na praia.

Dias depois deram à costa algumas tábuas do barco, do barco de António. E houve mais gritos, houve mais choro; desta vez, um choro mais resignado. Mas os gritos da mulher e dos filhos de António eram iguais aos do primeiro dia: fortes, desesperados…

Vieram os irmãos, do Canadá, para o funeral, mas o corpo de António não aparecia. O corpo de António não apareceu, ficou no fundo do mar.

Os irmãos tinham de partir, regressar ao trabalho. O patrão dera-lhes licença de poucos dias, tinham de voltar.

Joaquim falou com a cunhada. Que fosse para o Canadá, os filhos teriam uma vida melhor, ela teria uma vida melhor; que António ficaria contente. Conversaram muito.

E a mulher de António foi para o Canadá. Ela e os filhos, com a ajuda dos cunhados. Arranjaram-lhe casa, trabalho, os filhos na escola…

A mulher de António foi para o Canadá, os filhos de António foram para o Canadá; têm uma vida melhor. Era o desejo de António.

Mas António não deixou o mar. Porque o mar, ciumento, não o deixou partir.

António não deixou o mar. O mar não deixou o António.

 

Felipa Monteverde



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