Segunda-feira, 15 de Abril de 2013

Maria Antónia acordava todos os dias às sete horas. Não que se levantasse a essa hora, mas gostava de ficar sempre um bocadinho na cama, acordada, antes de se levantar para mais um dia de trabalho.

Por volta das oito horas já tinha tomado o pequeno-almoço, estava pronta para sair e esperava por ele.

Ele era o autocarro, o companheiro das oito, como dizia. Todos os dias da semana, à mesma hora, mais minuto menos minuto, ela apanhava aquele autocarro e lá ia, sem vontade nenhuma, trabalhar.

Ah, como ansiava um dia encontrar um homem rico, ou pelo menos um daqueles que têm brio masculino, ou lá o nome que isso tem, e não querem que a mulher trabalhe... assim já ela não teria de se preocupar em levantar-se da cama, ficaria todo o dia entre os lençóis, bem deitadinha...

O pior seria o dinheiro. Habituada à independência financeira desde muito nova, algum dia seria ela capaz de depender de um homem? Depender para tudo, pedir dinheiro para tudo, até para comprar um simples lenço?

Não sabia, não sabia se seria capaz... queria era dormir, isso sim, até ao meio-dia, todos os dias... o resto ver-se-ia depois.

Mas encontrar um homem desses não é tarefa fácil. Ela bem tenta, mas não é fácil. É que para que ela se submeta a um homem desses, de quem ficaria totalmente dependente, ele tem de ter todas as qualidades, todinhas mesmo, não perdoa nenhuma...

E por isso ainda espera por ele, pelo homem e pelo autocarro, todos os dias. O autocarro nunca falta, o homem tarda em aparecer... mas um dia chegará, ela sabe, em que o encontrará, num sítio qualquer. Se há tantas mulheres com essa sorte, por que não há de ela tê-la também?

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 22:40 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

Quinta-feira, 4 de Abril de 2013

Fez um amigo. Um desses amigos que agora é comum encontrar, num chat da Internet. Fez um amigo e tem medo, no que vai isso dar?

Não faz tenções de avançar com nada, de o conhecer pessoalmente, não precisa. Tudo que quer dele são as palavras amigas que recebe, o carinho que embora virtual existe mesmo. E vive os dias para essas palavras, esconde a ansiedade indo ao café, à noite, procurando não ter pressa, para provar a si mesma que ele é apenas mais um dos muitos amigos, homens e mulheres, com quem "fala" muitas noites por semana. Mas não consegue estar muito tempo longe e vai embora, para casa, sabe que se ele já não estiver "on" ela passará a noite a chorar.

Estar "online" é a sua preocupação mal chega do trabalho, permitir que ele a encontre quando a procura no chat, estar sempre ali, para ele, só para ele. Todos os outros amigos a aborrecem, sempre com os mesmo assuntos, as mesmas conversas parvas. Aquele não, é diferente de todos, sabe falar e sabe o que diz, mas principalmente sabe "escutar", dar atenção. E atenção é do que ela mais precisa, que a ouçam, que a escutem pelo que ela é e vale e não pela utilidade que possa ter para alguém.

Por isso gosta dele. Não lhe imagina o rosto, as feições, até pode ser preto, chinês, aleijado... o que ela gosta nele é superior ao aspeto físico, é a alma, o espírito, a amizade. Profunda, foi crescendo e agora é do tamanho da sua solidão. Ou maior ainda, envolvendo-a e protegendo-a.

Quando liga o computador é nele que pensa, é ele que espera. É por ele que anseia enquanto "conversa" com outros. As amigas falando de vernizes para unhas, roupas e limpezas na casa, os amigos de assuntos ainda mais banais. Só aquele fala diferente, as suas palavras parecem pautas musicais, que ela lê avidamente e às quais responde com muitos smiles. 

Um dia disse a uma amiga para ter cuidado com quem conhece na Internet, pode ser alguém perigoso... e hoje ela está completamente passada das ideias por alguém que conheceu "online"...

Não contou nada às amigas, nada lhes conta deste amigo, deste ser especial que ama. Sim, porque o ama. Ama sem conhecer, sem nunca o ter visto. Mas não quer vê-lo, sabe que quando o vir tudo acabará, a fantasia em que envolveu essa amizade não resistirá ao facto de que ele também a verá tal como é, insignificante e decadente... e não quer que ele a veja, que saiba como é velha, acabada, solitariamente entregue a si mesma, sem ter sequer um gato a fazer-lhe companhia. As pequenas mentiras que lhe contou tornar-se-iam monstros enormes a esmagá-la... por isso não quer vê-lo, quer apenas amá-lo no silêncio, por trás da tela de um computador, falando numa linguagem enfeitada com muitos smiles...

 

Felipa Monteverde

Para J. C.



publicado por Felipa Monteverde às 21:51 | link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito

Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Ouvia-o mas parecia que as palavras dele soavam muito longe, tão longe como a vida que ambos haviam partilhado. Já não parecia o mesmo. Naquele rosto marcado pela idade, onde as rugas iam desenhando traços de solidão, parecia não haver nada do homem que ela conhecera, nada restava do sonho que a havia atraído ao vê-lo pela primeira vez. Longe, tão longe, ficaram as lembranças, perdidas na noite escura do desespero que já sentira e das saudades que ainda guardava no peito e na alma.

Ouvia-o e parecia não ouvir, não entendia nada, as palavras pareciam disfarçadas ou distorcidas, não conseguia perceber sequer qual o assunto de que ele falava. Ou não queria perceber. Nem entender. Preferia ignorar, ignorar sempre, só queria dormir. Dormir toda a noite e todo o dia, todos os dias e todas as noites.

Ele insistia, chamava-a pelo nome, chamava-a com carinho, até. Falava, falava muito. Insistia com ela e ela sem entender nada, de que falava ele? "Não durmas" dizia, quase gritava, mas ela tinha tanto sono...

Olhava para ele sem entender, os olhos queriam fechar-se, queria gritar por socorro, que a deixasse dormir em paz. Mas ele não deixava, e falava, e gritava, e dizia coisas que ela não entendia.

Por que insistia ele tanto em chateá-la? Em não a deixar descansar em paz? Ela só queria dormir, até tinha tomado mais comprimidos do que o habitual, a ver se descansava, há dias que a cabeça não parava de lhe doer, de a incomodar com aquela dor lancinante que parecia roubar-lhe a alma. E ela sem aguentar mais, os analgésicos já sem o efeito pretendido, sem conseguir sequer dormir, há tantos dias a sofrer... E agora era ele que não a deixava dormir, e os comprimidos a fazerem-na adormecer... não aguentava mais, o sono a invadi-la e ela a querer deixar-se ir...

"Deixa-me dormir" disse, e ele "o que te fiz, por que fizeste isto" e ela "isto o quê, deixa-me dormir, não sejas chato"...

E agora ele a pô-la na banheira, que significava isso, estava doido?

"Não durmas", gritava ele, "não me deixes", o parvo, mas onde pensava ele que ela ia, ela só queria dormir, mais nada... e ele a abrir a torneira, o idiota, a molhar-lhe o pijama, era doido...

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 17:32 | link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito

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