Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2014

A crise dos outros não me incomoda

jamais alguém se preocupou com a minha.

Vivo em crise desde que nasci, poupança

foi a primeira palavra que aprendi.

 

Tenho desejos, como toda a gente tem, de

ter coisas boas e bonitas – mas a crise que

me acompanha desde o nascimento jamais

me permitirá tê-las para além do sonho…

Passeios, viagens que farei, vestidos e joias

que um dia comprarei…

 

Entretanto esse sonho vai mirrando

cada dia mais… pouco a pouco vai deixando

de ter espaço para eu lá habitar… E de novo

acordo para a crise, real mistura de emoções que

todos sentem, entre altos desejos e vontades

e a simples satisfação de meras necessidades…

 

A crise dos outros não me incomoda, se

a vivem num vestido mais bonito do que o meu.

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 13:20 | link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito

Quarta-feira, 8 de Janeiro de 2014

Engoliu à pressa o café, a chávena escaldando os dedos. Queimou a língua mas não se importou, lá fora a primavera despertava e ele queria assistir ao nascimento da primeira flor. Ver o sol, depois de semanas ininterruptas de chuva, era como renascer. Sentia as forças aumentarem, a alegria a instalar-se.

Bebeu à pressa o seu café e ficou aguardando, a menina Eugénia viria logo para lhe empurrar a cadeira até ao jardim. Deixá-lo-ia lá, uma manta sobre os joelhos, até que a chamasse. Mas hoje não chamaria, as saudades que sentia do sol não se matariam com uma hora ou duas de exposição. Precisava de o sentir na pele, de o deixar abrasá-lo com o seu calor. Viesse a menina Eugénia buscá-lo apenas para o almoço, até lá queria absorver tudo o que pudesse do astro amigo.

Ficou horas no jardim. Com o olhar de quem se habituou desde muito cedo a reparar nos mais ínfimos pormenores das coisas, ele via todas as plantinhas que despontavam no jardim, todas as flores cujo botão já assomava. E desenhava.

Nos seus desenhos havia sempre flores, havia sempre uma nova planta ou flor para mostrar ao mundo. Ao mundo ou à menina Eugénia, que era quem dependurava todos esses desenhos nas paredes do seu quarto. E até no corredor, quando todas as paredes do quarto que era o seu mundo não chegavam. 

 

Felipa Monteverde



publicado por Felipa Monteverde às 23:22 | link do post | comentar | favorito

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