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Enquanto a roupa seca no varal

Enquanto a roupa seca no varal

29
Jan13

Mendigo

Felipa Monteverde

Os pés estavam doridos, afligiam-no os joanetes e as unhas encravadas. Tirou as botas, o guarda-chuva pousado ao lado. Sentou-se e tirou também as meias. O cansaço diluiu-se na aragem, o sono ameaçava chegar mais cedo.

Olhou e não viu banco de jardim. Mais uma noite desconfortável ao relento. Roubaram-lhe o cobertor há três noites, tem de procurar a carrinha da Assistência novamente.

Não se habitua a isto. Não sabe ser mendigo, não tem jeito para pedinchar. Nem para roubar. Por isso lhe dói tanto o estômago, nem sempre a fome se deixa enganar.

Era assim que lhe diziam que seria. Não era assim que ele pretendera que fosse. O casamento falhado, o emprego perdido, o filho que não conseguira ter. Avisaram-no: aquela mulher não prestava. E não prestava mesmo, ele é que tarde o descobrira.

Arruinara-o. Abandonara-o depois. Os credores é que não o abandonaram, levaram o que restara e o que não tinha. Por isso vivia agora na rua. Escorraçado como um cão, miserável entre os miseráveis.

Mesmo assim, perguntava-se muitas vezes por que não se suicidava. Seria fácil, havia por ali um rio perto. Quem se importaria com a morte de ninguém?

Mas o sol que todas as manhãs o despertava prometia-lhe calor que o aqueceria, luz que lhe guiaria os dias, iluminando-lhe o caminho. Caminho que percorria sem saber aonde o levaria, quando terminaria a caminhada.

Comia laranjas, havia muitas laranjeiras à beira dos caminhos. Matavam-lhe a fome, adoeciam-lhe o estômago. Mas o pior de tudo eram os pés. Os joanetes, as botas apertadas, as unhas encravadas…

O caminho não era fácil de percorrer, nem a esperança fácil de alcançar. Mas ele levava esse desejo consigo, juntinho ao coração. Um dia, sabia bem, ela deixar-se-ia alcançar.

 

Felipa Monteverde

 

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