Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Enquanto a roupa seca no varal

Enquanto a roupa seca no varal

03
Abr13

Sono

Felipa Monteverde

Ouvia-o mas parecia que as palavras dele soavam muito longe, tão longe como a vida que ambos haviam partilhado. Já não parecia o mesmo. Naquele rosto marcado pela idade, onde as rugas iam desenhando traços de solidão, parecia não haver nada do homem que ela conhecera, nada restava do sonho que a havia atraído ao vê-lo pela primeira vez. Longe, tão longe, ficaram as lembranças, perdidas na noite escura do desespero que já sentira e das saudades que ainda guardava no peito e na alma.

Ouvia-o e parecia não ouvir, não entendia nada, as palavras pareciam disfarçadas ou distorcidas, não conseguia perceber sequer qual o assunto de que ele falava. Ou não queria perceber. Nem entender. Preferia ignorar, ignorar sempre, só queria dormir. Dormir toda a noite e todo o dia, todos os dias e todas as noites.

Ele insistia, chamava-a pelo nome, chamava-a com carinho, até. Falava, falava muito. Insistia com ela e ela sem entender nada, de que falava ele? "Não durmas" dizia, quase gritava, mas ela tinha tanto sono...

Olhava para ele sem entender, os olhos queriam fechar-se, queria gritar por socorro, que a deixasse dormir em paz. Mas ele não deixava, e falava, e gritava, e dizia coisas que ela não entendia.

Por que insistia ele tanto em chateá-la? Em não a deixar descansar em paz? Ela só queria dormir, até tinha tomado mais comprimidos do que o habitual, a ver se descansava, há dias que a cabeça não parava de lhe doer, de a incomodar com aquela dor lancinante que parecia roubar-lhe a alma. E ela sem aguentar mais, os analgésicos já sem o efeito pretendido, sem conseguir sequer dormir, há tantos dias a sofrer... E agora era ele que não a deixava dormir, e os comprimidos a fazerem-na adormecer... não aguentava mais, o sono a invadi-la e ela a querer deixar-se ir...

"Deixa-me dormir" disse, e ele "o que te fiz, por que fizeste isto" e ela "isto o quê, deixa-me dormir, não sejas chato"...

E agora ele a pô-la na banheira, que significava isso, estava doido?

"Não durmas", gritava ele, "não me deixes", o parvo, mas onde pensava ele que ela ia, ela só queria dormir, mais nada... e ele a abrir a torneira, o idiota, a molhar-lhe o pijama, era doido...

 

Felipa Monteverde

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Os meus outros blogues:

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D