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Enquanto a roupa seca no varal

Enquanto a roupa seca no varal

04
Abr13

Um amigo

Felipa Monteverde

Fez um amigo. Um desses amigos que agora é comum encontrar, num chat da Internet. Fez um amigo e tem medo, no que vai isso dar?

Não faz tenções de avançar com nada, de o conhecer pessoalmente, não precisa. Tudo que quer dele são as palavras amigas que recebe, o carinho que embora virtual existe mesmo. E vive os dias para essas palavras, esconde a ansiedade indo ao café, à noite, procurando não ter pressa, para provar a si mesma que ele é apenas mais um dos muitos amigos, homens e mulheres, com quem "fala" muitas noites por semana. Mas não consegue estar muito tempo longe e vai embora, para casa, sabe que se ele já não estiver "on" ela passará a noite a chorar.

Estar "online" é a sua preocupação mal chega do trabalho, permitir que ele a encontre quando a procura no chat, estar sempre ali, para ele, só para ele. Todos os outros amigos a aborrecem, sempre com os mesmo assuntos, as mesmas conversas parvas. Aquele não, é diferente de todos, sabe falar e sabe o que diz, mas principalmente sabe "escutar", dar atenção. E atenção é do que ela mais precisa, que a ouçam, que a escutem pelo que ela é e vale e não pela utilidade que possa ter para alguém.

Por isso gosta dele. Não lhe imagina o rosto, as feições, até pode ser preto, chinês, aleijado... o que ela gosta nele é superior ao aspeto físico, é a alma, o espírito, a amizade. Profunda, foi crescendo e agora é do tamanho da sua solidão. Ou maior ainda, envolvendo-a e protegendo-a.

Quando liga o computador é nele que pensa, é ele que espera. É por ele que anseia enquanto "conversa" com outros. As amigas falando de vernizes para unhas, roupas e limpezas na casa, os amigos de assuntos ainda mais banais. Só aquele fala diferente, as suas palavras parecem pautas musicais, que ela lê avidamente e às quais responde com muitos smiles. 

Um dia disse a uma amiga para ter cuidado com quem conhece na Internet, pode ser alguém perigoso... e hoje ela está completamente passada das ideias por alguém que conheceu "online"...

Não contou nada às amigas, nada lhes conta deste amigo, deste ser especial que ama. Sim, porque o ama. Ama sem conhecer, sem nunca o ter visto. Mas não quer vê-lo, sabe que quando o vir tudo acabará, a fantasia em que envolveu essa amizade não resistirá ao facto de que ele também a verá tal como é, insignificante e decadente... e não quer que ele a veja, que saiba como é velha, acabada, solitariamente entregue a si mesma, sem ter sequer um gato a fazer-lhe companhia. As pequenas mentiras que lhe contou tornar-se-iam monstros enormes a esmagá-la... por isso não quer vê-lo, quer apenas amá-lo no silêncio, por trás da tela de um computador, falando numa linguagem enfeitada com muitos smiles...

 

Felipa Monteverde

Para J. C.

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